A honra como herança

Dois irmãos. Um sobre o leito, sem nenhuma lucidez mental, apenas respirava aguardando a qualquer momento a chegada da morte. Acometido por uma enfermidade irreversível que lhe afetou o cérebro, encontrava-se estático, sem a mínima esperança de reversão. O outro, sabendo que o irmão enfermo já não tinha mais qualquer lampejo de lucidez mental, tentou tirar proveitos disto.

Os dois haviam sido gerados no mesmo ambiente familiar. Um, mercê de sua abnegada dedicação ao trabalho, conseguiu adquirir duas pequenas propriedades rurais. O outro, foi seu empregado durante vários anos, e, ao invés de se solidarizar às sobrinhas, surpreendeu-as com a propositura de uma ação trabalhista na qual postulou uma vultosa quantidade de dinheiro.

Colocadas também no pólo passivo da ação, as duas filhas, que jamais haviam acompanhado as atividades do pai e que não tinham como extrair dele qualquer informação para a defesa, fizeram uma ampla e detalhada prospecção nos livros e nos papéis velhos que estavam mantidos em arquivo.

Precisavam encontrar documentos que efetivamente comprovassem à justiça os pagamentos dos salários efetuados durante a vigência do contrato laboral, para que ficasse demonstrada a inexistência de redução ilícita dos mesmos, além de juntar documentos comprobatórios dos pagamentos relativos às férias, às gratificações natalinas, ao FGTS, etc.

Era absolutamente necessário demonstrar ao juiz que o pai havia tido um comportamento honesto e que as acusações assacadas contra ele eram absolutamente falsas.

Após intensa procura, as filhas tiveram uma extraordinária surpresa: encontraram dois documentos elaborados manualmente por ele e que provocaram grandes emoções na família.

O primeiro, contém um roteiro técnico que as filhas deveriam seguir para que tivessem prosperidade econômica na administração das pequenas propriedades rurais – sua herança patrimonial.

O segundo documento é uma preciosidade – em letras rudes e trêmulas, ele firmou um inventário moral, resultante de suas reflexões íntimas e das experiências colhidas ao longo da vida.

Destacou primeiramente, que as filhas deveriam aceitar os conselhos das pessoas mais velhas e que deveriam ser direitas e honestas, pois, esta é “a principal base”, o alicerce de tudo.

Enfatizou que os negócios não deveriam ser feitos com o objetivo de explorar aos outros, pois, “nunca dá certo usar os inocentes”.

Sugeriu em seguida, que se as filhas fizessem sociedade com alguém, deveriam repartir; entregar a parte do sócio, “sem espírito de velhacaria, porque o alheio chora o seu dono e quando você engana ao próximo, Deus está vendo”.

“Cumprir os seus negócios no dia certo, seja com quem for, e se não puder pagar, procurar entendimento com honestidade… não dê seu nome em troca de dinheiro, ele é muito bom, se for ganho honestamente… guarde o velho ditado: o pai rouba, o filho come e o neto morre de fome… este é o espelho de Deus…”.

Esse documento foi anexado aos autos e acabou se transformando numa peça extraordinariamente importante para convencer o juiz a aceitar as alegações da defesa, no sentido de que um homem com essa índole, com essa vocação, com esse senso de honestidade para com os outros, jamais seria capaz de produzir falcatruas contra qualquer pessoa, principalmente contra o seu próprio irmão.

A história real permite extrair uma ilação importante: cada um é o biógrafo de si mesmo. O indivíduo, homem ou mulher, pode fazer a escolha. A inclinação pelo bem gera respeito e credibilidade até depois da morte. A opção pelo inverso estigmatiza a pessoa e a coloca inexoravelmente diante da execração pública.

Infeliz a pessoa que se conforma com suas desonestidades, justificando-as com os erros alheios. Segundo Chaplin, somente há esperanças “enquanto te envergonhares de teus erros”. Se eles forem motivos de euforia e de regozijo, as suas vitórias serão efêmeras e os castelos desabarão sobre sua própria cabeça. Jamais alcançarão respeito social, principalmente daqueles que legaram a honra como herança.


Loading...


Sub-Pages

Loading
Bookmark and Share Follow becauseonline on Twitter

Adicione o Because no seu Blog ou Site

De onde você veio?

PageRank
Loading...