Nos próximos 100 anos

Este artigo, por feliz coincidência, está sendo publicado numa edição histórica que comemora os cem anos de fundação da cidade de Araçatuba.

Este fato provocou a necessidade de refletir sobre o conteúdo do que deveria ser escrito numa oportunidade como esta. Afinal, trata-se de um evento único, pois, no próximo centenário, a presença física é risivelmente incerta e improvável.

Um rapidíssimo retrospecto na vida profissional permitiu constatar que durante quase 35 por cento dos anos que Araçatuba possui foram utilizados por mim no exercício do magistério superior, formando bacharéis em direito.

A convivência prolongada com a juventude e a preocupação com o futuro daqueles que vão se profissionalizar no campo do direito fez-me propender a aproveitar esta edição para transmitir aos jovens acadêmicos de direito uma mensagem, que poderá servir à posteridade.

O direito é um campo infindável de estudos e de prospecções contínuas. Aqueles que forem seguir a advocacia devem saber que o futuro não será recheado apenas de grandes conquistas e de vitórias retumbantes.

Ninguém, absolutamente ninguém, estará isento dos estigmas, das suspeitas e dos preconceitos que maculam a imagem do advogado. É preciso, portanto, ter sobras morais para poder suplantá-los.

Numa advocacia extremamente concorrida, em que o cliente quase sempre vê o advogado com extrema reserva, torna-se absolutamente necessário seguir um irrefragável roteiro ético, pois ele fará, sem dúvida, com que cada qual seja distinguido pelo que há de melhor no ser humano: o senso da dignidade.

O apetite de honras e ganhos imediatos constituem uma armadilha para o advogado iniciante e somente consegue renunciar a eles aquele que tem, por formação familiar ou por índole pessoal, um perfeito senso de moral e de probidade.

O homem, firme de seus ideais e da justiça de sua causa, não se detém, segue a sua rota, irredutível em sua fé, imperturbável em sua conduta, pois “quem caminha em direção a uma luz não pode observar o que se passa à sua sombra”.

Os que forem exercer cargos públicos, como procuradores, delegados, defensores, promotores e juízes, devem estar absolutamente conscientes da consideração que merecem as pessoas que deles necessitam.

Não é criando o temor, não é menosprezando ao próximo que se ganha respeito. O tratamento precisa ser sempre respeitoso e cordial indistintamente para com todos.

A arrogância e a prepotência são atributos próprios dos ineptos, dos medíocres, dos que sofrem patologias da personalidade. Aqueles que se sentirem superiores em virtude do exercício de algum cargo público são indignos de exercê-lo.

É preciso ter sempre a consciência de que o tempo não retroage para que as humilhações, as ofensas e as injustiças sejam reparadas. Os autores de tais atos devem levar em conta que o ofendido irá perder a confiança na autoridade pública, depositando descrédito na justiça e jamais vai deixar de sentir repugnância pessoal quando alguma coisa lhe trouxer a lembrança dos fatos.

A natureza dá um grande exemplo ao homem: a espiga de trigo, quanto mais granada e de maior conteúdo, curva-se mais. O homem que tem consciência de seu valor e de sua utilidade social preserva-se na sobriedade, no equilíbrio e na discrição. A humildade é, indubitavelmente, a melhor veste que ele pode usar em todos os momentos de sua vida.

É preciso superar com altivez os momentos tempestuosos para que no futuro longínquo seja possível olhar para trás e sentir orgulho de ter deixado um rastro que servirá de exemplo àqueles que forem cumprir, nos próximos cem anos, os seus trajetos no fascinante e maravilhoso universo do direito.


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