O empregador morto


 

Trabalhar é requisito fundamental para a sobrevivência. O homem, como alguém já falou, "não é um universo autônomo que se baste a si mesmo. Ele precisa sair de si e ir ao mundo para poder realizar-se, como o faz todo ser vivo". 

Em suas relações, o homem criou fórmulas por meio das quais atuou sozinho ou em grupo. A relação de emprego foi uma delas e certamente é, na atualidade, a que reúne o maior contingente humano.

O contrato de emprego é um casamento formalizado, obviamente, com outros propósitos. Há, todavia, muita similitude entre eles: alguns dão certo, outros prosseguem por tolerância ou por interesse e muitos terminam em brigas acirradas, geradoras de rancores agudos e de ressentimentos que se eternizam. 

A vida profissional no campo do direito do trabalho me permitiu vivenciar muitas coisas e elas têm me servido como aportes, como fontes inspiradoras para a elaboração dos artigos que remeto semanalmente a este jornal.

O enfoque, hoje, é outro e absolutamente distinto de todos os demais. Destaco o profundo sentimento de tristeza que abala alguns empregados diante da morte do patrão. Recebi certa vez uma incumbência. Um empregador havia falecido e a família decidiu vender o avião por ele utilizado e romper o contrato com o piloto. A solicitação foi no sentido de calcular as verbas rescisórias e não deixar de incluir absolutamente nada. O referido profissional viria até o meu escritório para aferir os valores e dar quitação dos mesmos. 

No momento em que ele se postou diante de mim, mostrei-lhe a intenção da família e a enorme gratidão pelos serviços prestados. Mal terminei a frase e o homem se irrompeu em choro convulsivo e incontrolável. Foi comovente constatar que o gigante que se sentou diante de mim era capaz de verter-se em lágrimas, de emitir gemidos e sussurros expelidos por seus lábios trêmulos e que ressoavam muito além dos limites de minha sala.

Vi também lágrimas copiosas serem despejadas pelos empregados da Padaria Europa. A morte inesperada do empregador causou um choque emocional de grande profundidade. Afinal, o novo prédio era um sonho que ele havia acalentado. Esforçou-se muito, pois queria presentear a sua clientela antes do Natal, com um ambiente lindo. E isto ele conseguiu realizar, embora tenha desfrutado do mesmo por apenas algumas horas. 

Recebi de um de seus colaboradores uma mensagem para que servisse de registro e revelasse o sentimento de dor e de solidariedade de todos os que trabalham naquela casa. 

Eis o que ele redigiu: 

"Paulo, nós aprendemos muito com você. Perdemos um grande amigo, um patrão companheiro de todos os dias. Onde você estiver, pode acreditar, que estará dentro de nossos corações. Pode ter a certeza de que tudo o que você deixou vamos cuidar com muito carinho. Quem o conheceu, quem trabalhou com você jamais irá esquecê-lo. Muito obrigado por tudo. Fique com Deus, nós o amamos muito". Cuca. 

Quem efetivamente teve contrato com ele guarda uma imagem positiva de um homem que lutou tenaz e obstinadamente para obter sucesso em sua atividade profissional e o fez tratando a todos e aos seus empregados com respeito e cordialidade.

O próprio Cuca, que elaborou a mensagem acima transcrita, contou-me que, durante os 18 anos de convívio com o Paulo, jamais presenciou uma única atitude indelicada em relação às pessoas que trabalharam com ele, apesar das enormes dificuldades e dos obstáculos que precisou transpor. 

Lamento, como todos, a sua morte prematura. Não quero saber o que lhe fez partir mais cedo. Vejo-me impulsionado a lhe atribuir méritos por ter sido um excelente empregador e a aplaudir efusivamente a atitude dos empregados que, por espírito de gratidão e solidariedade, assumiram o compromisso de "cuidar de tudo com muito carinho" e lutar pelo empregador, infelizmente morto. E quem comparece à Padaria Europa tem a nítida sensação de que todos estão profundamente empenhados nisto.


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