
O empregador morto
Trabalhar é requisito fundamental para a sobrevivência. O homem, como alguém já falou, "não é um universo autônomo que se baste a si mesmo. Ele precisa sair de si e ir ao mundo para poder realizar-se, como o faz todo ser vivo".
Em suas relações, o homem criou fórmulas por meio das quais atuou sozinho ou em grupo. A relação de emprego foi uma delas e certamente é, na atualidade, a que reúne o maior contingente humano.
A vida profissional no campo do direito do trabalho me permitiu vivenciar muitas coisas e elas têm me servido como aportes, como fontes inspiradoras para a elaboração dos artigos que remeto semanalmente a este jornal.
No momento em que ele se postou diante de mim, mostrei-lhe a intenção da família e a enorme gratidão pelos serviços prestados. Mal terminei a frase e o homem se irrompeu em choro convulsivo e incontrolável. Foi comovente constatar que o gigante que se sentou diante de mim era capaz de verter-se em lágrimas, de emitir gemidos e sussurros expelidos por seus lábios trêmulos e que ressoavam muito além dos limites de minha sala.
Eis o que ele redigiu:
"Paulo, nós aprendemos muito com você. Perdemos um grande amigo, um patrão companheiro de todos os dias. Onde você estiver, pode acreditar, que estará dentro de nossos corações. Pode ter a certeza de que tudo o que você deixou vamos cuidar com muito carinho. Quem o conheceu, quem trabalhou com você jamais irá esquecê-lo. Muito obrigado por tudo. Fique com Deus, nós o amamos muito". Cuca.
Quem efetivamente teve contrato com ele guarda uma imagem positiva de um homem que lutou tenaz e obstinadamente para obter sucesso em sua atividade profissional e o fez tratando a todos e aos seus empregados com respeito e cordialidade.
O próprio Cuca, que elaborou a mensagem acima transcrita, contou-me que, durante os 18 anos de convívio com o Paulo, jamais presenciou uma única atitude indelicada em relação às pessoas que trabalharam com ele, apesar das enormes dificuldades e dos obstáculos que precisou transpor.
Lamento, como todos, a sua morte prematura. Não quero saber o que lhe fez partir mais cedo. Vejo-me impulsionado a lhe atribuir méritos por ter sido um excelente empregador e a aplaudir efusivamente a atitude dos empregados que, por espírito de gratidão e solidariedade, assumiram o compromisso de "cuidar de tudo com muito carinho" e lutar pelo empregador, infelizmente morto. E quem comparece à Padaria Europa tem a nítida sensação de que todos estão profundamente empenhados nisto.
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