Um juiz coerente com suas origens


Qualquer menção que se faça à imigração japonesa imediatamente traz a imagem de pessoas simples que há exatamente cem anos desembarcavam no Brasil carregadas de temores, de expectativas e de esperanças.

Desceram do Kasato-Maru e pisaram o solo brasileiro em decorrência de um acordo firmado entre o Brasil e o Japão. Aqui, havia necessidade de gente para a agricultura. Lá, os japoneses já sofriam com o excesso populacional.

Pobres, traziam em suas bagagens os sonhos e a coragem de superar as vicissitudes, de transpor as dificuldades decorrentes dos costumes, da língua, da alimentação e dos preconceitos. Foram dias dificílimos que a história registra a saga de um povo valente que soube até mesmo amainar o enorme sofrimento provocado pela saudade que atormentou os incontáveis dias ” tristonhos e vazios”.

Os descendentes vivem hoje uma realidade totalmente diferente. Os sanseis, os yonseis e os que formam hoje a sexta geração estão plenamente integrados e fazem parte dessa grande miscigenação de raças que forma a nação brasileira e atuam nas mais diversificadas atividades econômicas e sociais, mostrando, sobretudo, que carregam os genes de seus antepassados e dão extraordinários exemplos de seriedade, de eficiência e de obstinado apego ao trabalho.

Esta coluna não poderia deixar de render homenagens aos japoneses e aos seus descendentes, mormente aos que se dedicam às mais variadas atividades no campo do direito laboral. Assim, optou por transcrever o pensamento de um juiz do trabalho, o Dr. Mauricio Takao Fuzita, que é um marcante exemplo da índole japonesa e que pauta a sua vida de trabalho com base nos exemplos que herdou de seus antepassados, atuando com extrema seriedade, com obcecada e renitente determinação de buscar a verdade, revelando enorme competência profissional, extremado conhecimento jurídico e enorme senso de dignidade profissional. Eis o que foi dito por ele:

Coluna: Dr. Maurício, como a educação e a filosofia oriental, que certamente permearam a construção de sua personalidade, tiveram influência na escolha pelo direito e pela magistratura?

Dr. Maurício: Eu tive a sorte de ter convivido com o meu avô materno (falecido em 1989), pois foi ele, com a sua sabedoria oriental, que me ensinou, entre outras coisas, a ser honesto, respeitoso e, principalmente, perseverante. A minha escolha pelo direito foi feita sem qualquer influência, mas quem me influenciou a escolher a magistratura foi o meu avô materno, que era um grande admirador do Dr. Kazuo Watanabe, professor e desembargador aposentado do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo.

Que emoções atingem a sensibilidade de um filho de orientais no momento em que se comemora o centenário da imigração japonesa no Brasil?

De muita alegria, com sentimento de orgulho, pois os japoneses, com sua cultura milenar, influenciaram o Brasil e mantiveram vivas as tradições dos antepassados, tais como: a culinária, as danças, o bonsai etc.

Há muitos brasileiros que estão fazendo o movimento inverso indo trabalhar no Japão. Há similitudes entre o direito laboral do Brasil em relação ao japonês?

Poucas coisas lá no Japão são como as nossas, pois a realidade deles é muito diferente. Lá a jornada de trabalho é de 40 horas semanais e eles possuem órgãos consultivos que tiram dúvidas dos empregadores.

É possível estabelecer formas comparativas entre os critérios de solução dos conflitos trabalhistas adotadas no Japão em relação às praticadas no Brasil?

Acredito que não há comparação. Lá o sistema é informal. Normalmente as partes resolvem o litígio entre elas mesmas, sendo que recorrem ao Judiciário somente em último caso.

O advogado é visto sempre pelo juiz como um criador parcial de verdades?

Eu particularmente penso que não, pois o advogado, a despeito de ser parcial, não cria fatos. Ele trabalha com fatos já ocorridos, declarados pelo seu constituinte, que ele acredita serem verdadeiros.

Quais as atitudes mais virtuosas que devem presidir a conduta de um magistrado no âmbito de suas atividades profissionais?

Paciência, equilíbrio, urbanidade, compreensão e retidão moral.

Já houve quem dissesse que “os juízes não devem ser mais do que boca que pronuncia as palavras da lei, seres inanimados que não podem moderar nem a força nem o rigor da lei”. O senhor entende que o papel do juiz é esse mesmo?

Não. O juiz deve ser atuante e ir além do seu conhecimento técnico, na busca de uma solução para o conflito que lhe foi apresentado, mas sempre de forma equilibrada. Se um dia o juiz passar a fazer o papel de um ser inanimado, penso que ele não será mais necessário no mundo jurídico, pois um simples computador poderá substituí-lo.

Paciência, equilíbrio e tolerância integram a filosofia oriental destacada pelo entrevistado, pois isto une a família, une os homens, estabelece um relacionamento harmonioso entre empregados e empregadores e ajuda na construção da paz. Como afirma Norberto Bobbio, para além de todas as razões pode-se aduzir em favor destas virtudes uma razão moral “o respeito à pessoa alheia”.

 


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