Despreparo prejudica diagnóstico de câncer


Erros médicos nessa área são comuns e atrasam início do tratamento 
LUCIANA MIRANDA 

Uma pomadinha para quem tem tumor maligno. 

Quimioterapia para quem não tem câncer. Entre as doenças complexas mais comuns, o câncer anda confundindo médicos. O motivo: despreparo do profissional. O pior é que nem sempre são tipos raros da doença. A confusão ronda até casos de câncer de mama, o mais comum entre as brasileiras. O resultado é diagnóstico errado que atrasa o começo do tratamento. 

Pesquisa do Hospital do Câncer A. C. Camargo mostra que, em média, há uma lacuna de seis meses entre os primeiros sintomas e o diagnóstico. "Nesse período, o tumor pode mudar de estágio, tornando-se maior e mais disseminado", explica Daniel Deheinzelin, diretor clínico do Hospital do Câncer. Quanto mais desenvolvido for o tumor, menores as chances de cura. 

Segundo Deheinzelin, cada mudança de estágio do tumor pode diminuir em 20% as possibilidades de cura. 

Dois anos. Foi o tempo que levou até que Anna Amélia de Oliveira, de 45 anos, descobrisse estar com câncer de mama. O nódulo no seio esquerdo foi detectado pelo ginecologista em consulta de rotina. Sem pedir exames para investigar o que tinha encontrado, o médico se limitou a indicar massagens no seio durante o banho e aplicação de compressas de água quente. "Não é qualquer médico, trata-se de conceituado ginecologista de um centro de referência", enfatiza Anna. "Escolhi o profissional a dedo para ter o melhor atendimento." 

Insegura com a conduta do ginecologista, Anna acabou fazendo exame de mamografia por conta própria. O resultado deu que estava tudo normal. Ao retornar ao ginecologista, foi atendida por seu assistente, que reforçou a indicação das compressas. 

Mais um ano e Anna repetiu a mamografia: apesar de confuso, o laudo também indicava normalidade. Foi quando ela decidiu procurar o mesmo médico que tratara uma cunhada com câncer de mama. Assim que o encontrou, marcou a consulta. 

"Ao me examinar e tocar o nódulo, o médico mudou de fisionomia", lembra Anna. Ele analisou as duas mamografias anteriores, reclamou da qualidade delas e pediu uma terceira. O novo exame constatou a suspeita do médico: 

Anna tinha mesmo câncer de mama. "Fui operada para retirar o tumor em julho do ano passado; perdi parte da mama." Anna reuniu toda a documentação sobre sua saga e se prepara para entrar na Justiça contra o renomado ginecologista que atrasou o diagnóstico. 

Problema hormonal – Tânia (nome fictício), de 38 anos, passou por história semelhante e já está com processo na Justiça contra a ginecologista que a atendeu. Ao notar um caroço no seio direito, correu para o médico. "Como estava sem convênio médico, recorri ao posto de saúde perto de casa." Sem saber, Tânia tinha um tumor de mama de 10 centímetros de diâmetro. 

"Isso não é nada. É problema hormonal", concluiu a ginecologista, que se limitou a olhar a mama de Tânia, sem apalpá-la. Além de pedir exames de ultra-som, a médica receitou uma pomada. De posse dos exames, fez o dianóstico: nenhum problema no seio, apenas alguns cistos no ovário. 

"Perguntei a ela se era grave", conta Tânia. "Para mim, só câncer é grave", respondeu a médica. 

O estado de Tânia piorou: a mama doía cada vez mais, além de eliminar secreção. Os dois sintomas tinham sido relatados para a ginecologista. Tânia decidiu procurar uma segunda opinião médica. "Fui ao Instituto Brasileiro de Controle do Câncer (IBCC)." Depois de repetir os exames, veio o diagnóstico: 

câncer de mama. Em março do ano passado, Tânia se submeteu a cirurgia de retirada total da mama direita. 

Segundo Antonieta Kulaif, presidente da Associação das Vítimas de Erros Médicos, casos como o de Tânia e Anna Amélia são comuns. 

Ao enfrentar o câncer publicamente, a apresentadora de TV Ana Maria Braga, da Rede Globo, insiste na importância da relação entre paciente e médico. 

Apesar de terem surgido suspeitas de erro médico em seu caso, Ana Maria enfatiza que ela mesma bobeou. Há um ano, já tinha notado gânglios na virilha, mas só deu essa informação para o médico em julho. 

Ana Maria acredita que a ajuda do paciente para o diagnóstico certeiro é fundamental. Quanto mais informado o médico estiver sobre as alterações do corpo do paciente, melhor. Se ao sair da consulta, a sensação for de insegurança, vale procurar uma segunda opinião. 

Até o médico tem medo de câncer. "É mais fácil pensar que não é câncer", diz Deheinzelin. Para ele, o estigma em torno da doença persiste e impede que o médico ouse pensar na possibilidade da doença. "É um estigma besta porque câncer tem cura." 
JORNAL O ESTADO DE SÃO PAULO
16/12/2001.


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